Contos

A Margem do Rio

Rogério Anele


Era outono e o pôr do sol estava deslumbrante. Vera Lúcia curtia o hábito de ficar junto à margem do rio vendo a água passar. Fazia uma analogia disto com o decorrer da vida. Neste dia, relembrava férias passadas na infância, no outro lado deste rio.

Um tanto deprimida, as inquietações de algum tempo voltavam a lhe perturbar. Achou importante refletir um pouco e tentar encontrar respostas. As incursões nas memórias de sua infância lhe traziam insights ajudando-a a interpretar muitas situações. Isto a ajudava a tomar as decisões necessárias.

Foram férias na casa de seus tios-avôs. Olhando hoje ficava perto de onde estava. Naquela época era uma viagem longa.

Com um leve sorriso recordou o quanto lhe incomodou, aos sete anos de vida, a expressão tios-avôs. Não entendia, ou era tio ou era avô. E Rudi era definitivamente tio e Maria Helena não era uma avó. Os adultos tendem a complicar a vida das crianças, confundem as coisas e dificultam os entendimentos. Qual seria a razão para criar uma terceira relação a não ser o preciosismo dos fatos? Ou era tio ou era avô e até hoje pensa assim.

As memórias dessas férias lhe traziam passagens de alegria e tristeza. Uma mistura de sentimentos parecidos com os vividos agora.

Dos momentos alegres, o mais lembrado foram os passeios de carro. Ia em diversos lugares com o tio, parando em várias lojas e conhecendo outras pessoas. Entendia ser o trabalho dele, mas não compreendia seu ofício. Em uma época onde poucos tinham automóvel, achava o máximo poder andar em um. Projetava o dia da volta às aulas para falar sobre as férias. Iria se orgulhar de dizer que andou no carro do tio, e das muitas balas e chocolates que ganhava dos novos amigos.

As refeições eram pontos altos nessas férias. Principalmente o café da tarde, comia bolos, cuecas viradas e cucas. Se chovesse tinha bolinhos de chuva, uma delícia. Sentia afeto pela tia. Ela passava bastante tempo na cozinha e gostava de vê-la preparando os alimentos. A tia também lhe ensinara a fazer algumas receitas e foi daí que nasceu o seu gosto por cozinhar. Também a admirava fazendo tricô e ria muito vendo o gato e ela brigando pelos novelos de lã.

Tinha em sua memória os passeios no barco do tio, onde ficavam muitas horas naquele rio. Era uma embarcação pequena com um motor bem barulhento. Aprendeu a pescar. Isto talvez tenha lhe dado a paciência para fazer reflexões e a glória da conquista, sentimento alcançado quando fisgava um peixe. A mesma vivida no acerto da campanha publicitária ou posicionamento de mercado para um cliente. Após o retorno, ficava ansiosa aguardando o preparo do pescado. Apreciava os pratos de peixe feitos pelo próprio tio, e admirava-o por oferecer tantas opções diferentes. Em casa, a mãe só fazia peixe frito.

Outra lembrança positiva eram os finais de tarde. Sentada na cadeira de balanço, na área dos fundos, contemplava o rio e a sua cidade do outro lado, sempre acompanhada de pipocas e guaraná. Ficava com o coração acelerado quando via um navio grande passar. Sonhava e traçava planos para o futuro. Imaginava nome para as embarcações.

Dos momentos tristes, a mais marcante era a solidão sentida, fruto da saudade dos pais e do irmão. Adorava estar na casa dos tios, mas tinha uma sensação de abandono. Era amada por eles, porém nada compensava o carinho e atenção da mãe, nem mesmo os doces.

Apesar de todas as noites assistir televisão com os tios, após o jantar, não gostava. Os programas noturnos eram chatos e incompreensíveis. Só os acompanhava para ganhar chocolate.

A hora de dormir nem se fala. Tinha medo do escuro e chorava quieta por isso. Não reclamava e tão pouco contava para os tios. A mãe recomendou para não fazer coisas erradas e nem lhes aborrecer. Esforçava-se para dormir e logo ver o dia amanhecer.

A falta dos seus brinquedos lhe trazia melancolia. Tinha poucos, mas era apegada a eles. Tentava compensar pelos livros oferecidos pela tia. Acabara de aprender a ler e gostava disso, apesar de achar a maioria das histórias bem difíceis de entender. Toda vez que ela a via cabisbaixa, lhe dava um beijo e um pirulito.

Absorta nas suas lembranças, não percebeu o anoitecer.

Sabia exatamente da necessidade de diminuir o peso. Era difícil combate-las dia a dia. Havia passado da hora, mais uma vez, para buscar alternativas saudáveis.

Precisava mudar seus hábitos. Com coragem e determinação, retornou para casa. Iria marcar uma reconsulta com o endocrinologista e retomar as aulas na academia.

Emagrecer, era apenas uma de suas preocupações, mas precisava começar por alguma delas.


Conto integrante do livro Como Emagrecer em 40 Anos, a ser lançado em outubro-2018.


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