Contos

A ditadura

Rogério Anele


Fernando era do tipo provocador, adorava estender as discussões, e ter sempre a última palavra. Se expunha muitas vezes nos momentos de debates. Tinha posições fortes e boa argumentação. No tocante à política, era do tipo mais ponderado, equilibrado, não gostava de radicalização. Por ser uma pessoa mais relacional, integradora, sempre escolhia seus candidatos de posição mais ao centro, nem direita, nem esquerda.

Geórgia ficava na dela, não gostava de debates, não se posicionava, ainda mais nas discussões de religião, futebol e política. Apesar de recatada, tinha suas convicções e opinião própria, a não ser quando chegavam as eleições. Não abria sua posição política, mas sempre acompanhava os votos do marido.

- Amor, ainda não tenho meus candidatos. Tu sabes em quem vai votar?

- Geórgia, vou votar nos caras do PNI.

- No quê?

- PNI, Partido Nacional Independente.

- Este partido é novo? Não lembro deles na última eleição.

- Sim, o partido foi fundado há pouco tempo e não havia candidatos no nosso estado.

- Por que eles?

- Estão vindo com uma proposta mais conciliadora. O presidente do partido é médico e possui experiência na saúde pública, já o candidato à presidência é da área da educação e estão prometendo bastante atenção, na segurança, defendem a reforma tributária, almejam uma tributação mais justa aos trabalhadores e são favoráveis as privatizações de alguns segmentos. Sem contar a tão discutida reforma administrativa e da previdência.

- Faz uma colinha pra eu votar?

- Não tem ninguém da tua preferência?

- Amor, não tenho paciência de ficar lendo propostas e não votarei em alguém só porque é conhecido ou pela beleza, como minhas amigas fazem.

- Vamos assistir o debate de hoje à noite?

- Tá louco? Prefiro ver um bom filme. Os caras nunca respondem as perguntas. É uma palhaçada.

- Ahaaam, concordo, mas a forma como se colocam no debate dá claramente o jeito de atuar quando eleitos.

- Tá bom, entendo, mas quero a colinha.

Fernando dava a cola com seus candidatos. Ela confiava nele porque tinha bons argumentos e justificativas fundamentadas.

Seguiam a vida política a cada eleição. Votavam na mesma seção, iam juntos e comemoravam ou ficavam tristes frente aos resultados. No domingo à noite abriam um espumante para brindar o ato cívico, independente de quem se elegeu.

Assim foi até a eleição daquele ano. O momento era tenso, o país dividido em dois blocos com muito radicalismo. Onde começava uma discussão, era um grupo de um lado e outro contrário, não havia meio termo. As redes sociais estavam chatas. As pessoas brigavam e bloqueavam os que pensavam contrário as suas ideias.

Foi quando Geórgia se agigantou na política e ele se apequenou.

Ela passou a defender uma das posições como nunca antes e do modo como muitos vinham fazendo. Apresentava argumentos. A maioria eram fake news. Ele, a cada alegação, era acusado de defender o outro lado. O casamento passou por um período bem turbulento, tal qual o próprio país.

- Gente, não sou de lado nenhum, eu voto no centro, - dizia no churrasco entre amigos.

- Fernando, os caras já estão no poder há vários anos e a situação só piora, - argumentava Leandro.

- Eu sei, mas o outro lado também é radical.

- Nando vai votar no nosso candidato, - afirmou Geórgia.

- Amor, não voto em ditador. No caso, para mim, os dois lados são ditadores.

- Ah é? Estes que estão aí são democráticos por acaso?

- Amor, não disse isso e não voto neles.

- Se não votar no nosso vai dar o voto pra eles de novo.

- Amor, a eleição acontece em dois turnos. É assim exatamente pra cada um votar em quem quiser no primeiro. Depois sim, ficando duas opções a gente escolhe a melhor ou a menos pior, fazer o quê?

- Pra que votar assim? Vamos derrubá-los de primeira.

- Amor, não vou votar no teu candidato.

- Então assume o lado que tá aí e pronto, não se fala mais.

- Amor, já disse inúmeras vezes: vou votar em alguém do centro. Nem um lado, nem outro.

Os amigos estranharam, não estavam acostumados a vê-los assim. A cada final de semana, a discussão avançava de forma mais tensa. Fernando ficou isolado, até acuado algumas vezes. Todos defendiam a mudança no governo. Era a favor também, apenas não queria votar em outra ditadura, só alterando o lado.

Na véspera da eleição do primeiro turno, novo encontro dos amigos, mais um churrasco com vinho e o debate correndo solto.

- E aí Fernando, já decidiu pelo nosso lado?, - perguntou Mello.

- Não Melinho, vou votar no PNI.

- Este cara não tem chance. Eu também gosto dele, mas só cai o índice dele nas pesquisas, - comentou Silvia.

- Eu sei, mas não vou votar em ditador.

- Então vota no governo, retardado, - disse Geórgia atravessando a conversa.

- Geórgia, nunca votei nele. Não fala bobagem.

- Então vota no nosso candidato pô. O que custa?

- Este até voto, mas se não tiver outra alternativa no segundo turno.

- Não te entendo. Vota agora e vamos ganhar no primeiro turno. Olha aí na tv como cresce o percentual dele. Amanhã eu é que vou te dar uma colinha.

- Não quero colinha. Já disse, a eleição é em dois turnos pra gente poder votar primeiro em quem acreditamos.

- Vai botar o voto fora.

- Não importa. Não apoio ditaduras.

- Mas eu desejo a ditadura.

- O problema é teu Geórgia, eu não vou ser parceiro.

- Vai sim. Terminando aqui, vai pro quarto. Toma banho porque eu exijo a dita dura.

O resto da galera começou a rir.

- E te prepara pro segundo turno. Vou querer a dita dura de novo. Aqui em casa os dois turnos serão juntos, - finalizou Geórgia.

Fernando se resignou, encerrou a discussão. Mudou de assunto. Era só uma eleição, e já vivia com a ditadura também no casamento.


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