Crônicas

O bilhete premiado

Rogério Anele


Conheço pessoas que sonham e procuram por toda a vida um bilhete premiado. Um jeito, uma maneira, forma de se dar bem em uma única tacada. Você, com certeza, lembrará de duas ou três situações do seu dia-a-dia, ou conhecidos ou amigos de convivência.

Esses sujeitos, na grande maioria, dividem-se em duas categorias: os sonhadores e os oportunistas. O objetivo pode ser parecido, mas os meios para a conquista são diferentes.

Os sonhadores são pessoas do bem, se imaginam merecedoras de uma dádiva pelo feito nesta vida ou até mesmo os possuidores do credo de que serão recompensados pelos feitos em vidas passadas. Eles seguem o rumo sem grandes desvios. São responsáveis, cuidadosos e socialmente bem aceitos, por vezes um pouco ingênuos. Se diferenciam no fato de todos os dias fantasiarem com a proximidade do momento estar perto e de uma hora para outra encontrar o caminho para solucionar todos os problemas, isto é, receber uma bolada de grana suficiente para quitar seus débitos, realizar todos os seus sonhos e ainda ajudar um monte de gente (não falei que eles eram do bem?). Não importa de onde virá esse dinheiro, ele chegará, talvez fruto de herança de um parente longínquo, aposta lotérica ou até mesmo por uma lâmpada mágica encontrada na beira da praia em um amanhecer de inverno.

A segunda categoria são os oportunistas. Estão sempre prontos a passar a perna em alguém. Uma boa parte deles fazem isso ao vender um carro com graves problemas escondidos, cometer estelionato, manipular alguém pelo poder, conseguir ganhos ilícitos, praticar vingança, divulgar fake news e não raro aprontar no trabalho para derrubar um colega visando o lugar dele. Algumas vezes, essas atitudes até não são mal-intencionadas. Popularmente denominamos de “Lei de Gerson” (oriunda de um comercial antigo de cigarros nos convidando a levar vantagem em tudo). Excluindo os seguidores dessa Lei, o qual classifico como malandros, os demais têm um quê de maldade. A diferença entre eles é o grau dela. Os mais acentuados buscam em artimanhas o alijamento alheio, o ganho da sua vida. Golpe a golpe, se tornam transgressores contumazes. Com atos desonestos, enganam os outros, falsificando e ludibriando pessoas desavisadas e abusam da confiança dos de boa-fé.

Minha abordagem é sobre os ingênuos catadores do bilhete premiado, os sonhadores ingênuos.

Ao buscarem alternativas de investimentos, correm atrás da oportunidade de uma vida, a dica que vai fazer seu capital se multiplicar muitas vezes e em curtíssimo prazo. Não é difícil nos depararmos com alguém buscando uma dica do que vai bombar. O “bombamento” de hoje pode ser a derrocada do amanhã.

Situações assim geram mal interpretação sobre o ganho financeiro, rotulam o mercado de capitais como vilão e afugentam a maioria das pessoas na busca de novas alternativas de ganho neste mercado. Um bom exemplo são os que passam anos aplicando em caderneta de poupança. Ficam temerosos de perder seus recursos, mesmo existindo alternativas seguras e mais rentáveis. Ao conhecerem alguém com uma história de experiência desastrosa, iludidas por dicas “quentes”, reforçam seus temores e resistem a evoluir para outras possibilidades.

Minha orientação é de não sermos portadores deste tipo de sonho. Fazer investimentos não é uma decisão emocional, não é para amadores e via de regra pune fantasiadores sem informação técnica ou sem um mínimo de sapiência. Ninguém ganha dinheiro sem esforço, dedicação e cuidado. É preciso estudar, se informar, ler, buscar ajuda de quem conhece, seja o gerente do banco, um assessor financeiro ou pessoa de confiança, dominadora do assunto ou o produto que você está interessado. É necessário trabalhar para auferir ganhos. Você tem de ter um mínimo de avaliação sobre o mercado ou as opções de onde aportará seus recursos. Com essas atitudes, é pouco provável ter graves problemas de rendimentos.

Amigos, não existe a bola da vez, a dica que te enriquecerá de uma hora para outra. Investidores sonhadores são idênticos aos jogadores viciados de cassino. Sem estratégia nenhuma, chegam lá e colocam as fichas em um número ou uma única jogada. Em geral perdem. Caso ganhem, jogam inúmeras vezes para repetir o feito, resultando em um desastre. Não só perdem o prêmio, mas até o que não tem. Assim, em geral acontece com a “grande” dica de investimento. As estatísticas mostram a maioria das vezes especuladores se dando mal, como nos jogos de azar.

Ressalto não estar falando de pirâmides financeiras, títulos falsificados, imóveis irregulares, certificados adulterados de ouro e outras tantas situações, porque – já escrevi – isto pertence ao grupo dos desonestos, os quais não é o objetivo desta escrita.

Quando alguém pergunta qual a melhor opção para investir dinheiro? Costumo responder: “depende”. Depende do seu objetivo de vida, do montante, do prazo, do risco disposto a correr, do perfil do investidor, do plano de futuro, da chance de precisar resgatar o dinheiro aplicado antes do prazo de vencimento. Como podem ver, são muitas variáveis e definições necessárias para avaliação.

Outro fator é a importância de olharmos para mais de uma opção de aplicação. É necessário ter uma carteira diversa, qualificada e balanceada em mercados e produtos. É o velho ditado de “não colocar os ovos em uma única cesta”.

Se a conversa fluir, ou seja, a pessoa já não tiver me abandonado por achar que estou “escondendo o jogo”, me considerar prolixo ou não querer dar as respostas, não me furto de dizer qual a minha estratégia, por onde comecei, o porquê fiz e minhas experiências, tanto as positivas quanto as negativas.

Estimados leitores (ou investidores se preferirem): assim como na vida, no mercado financeiro não tem o bilhete premiado. Você até pode ter a sorte de achar um, contudo a busca deve ser alinhada com seu objetivo de vida, com uma estratégia bem definida e via de regra mirando o longo prazo. Warren Buffett, conhecido e consagrado investidor, afirma nunca aplicar seus recursos em algo que não conhece.

Encerro com a recomendação é de se desenvolver. Faça cursos, contrate um formador de educação financeira, estude, pesquise. Há necessidade de alocar tempo para cuidar do seu dinheiro. Tudo na vida dá trabalho, até fazer um churrasco. Investir não é diferente.


Cadastre-se para receber dicas, artigos e informações de concursos

 

 

Comentários:

Envie seu comentário

Nome :
E-mail :
Cidade/UF:
Mensagem:
Verificação:
Repita os caracteres "092004" no campo.