Contos

A noite que nunca terminou

Rogério Anele
01/01/2019


Era para ser uma noite inesquecível, pois era o casamento do meu filho. E assim foi, porém, marcado por uma profunda tristeza e grande perda.

O príncipe George sempre foi cortejado e desejado por todas as mulheres do reino. Como rei, tinha a preocupação dele fazer uma escolha digna, em que a futura rainha fosse respeitada e admirada pelos seus súditos. Meu desejo era vê-lo feliz tanto quanto não fui. A minha nora não deveria ser a rainha que minha esposa foi.

Após nosso casamento, Verônica se transformou numa mulher odiada por todos. Arrogante e esnobe, passou a ser diferente da dama simpática e amável que me encantou. Apesar de nunca descobrirmos o assassino, não foi à toa ter morrido envenenada. Afinal, colheu tantos desafetos, parecia até um ato de vingança de toda a corte.

Não foi tarefa fácil criar e educar um filho para ser um rei e ainda com a perda da mãe quando era um bebê. Fiz o possível, apoiado pelas camareiras da corte, meu irmão Gustavo, o braço do rei, e a minha cunhada Suelen. Foram próximos e importantes. George não poderia ter padrinhos melhores.

Foi um tempo sem guerras, cumpri o reinado sem maiores dificuldades. Apesar de não o deixar desprotegido, fiquei devendo na sua formação, tenho certeza. Talvez pelo fato de sempre ter sido exigente em tudo na minha vida, percebo hoje ter ficado mais tempo junto ao povo em detrimento da minha própria família.

Dentre todas as pretendentes, Luana arrebatou o coração dele. Era a filha do meio das três de Lorde Jean, homem renomado, com as maiores posses da região. Loira e de olhos azuis, ficava exuberante naquele vestido da mesma cor. Todos gostavam dela, menos minha cunhada, olhando-a sempre com desprezo e ciúme, enquanto dançavam a valsa de abertura do baile. Suas filhas, Clarice e Coralina, pareciam acompanhar a mãe. Sempre foram muito oferecidas a George, mas nesta noite estavam resignadas.

Após o jantar, todos foram para o salão principal do castelo de New Garden. Tudo acontecia de forma delicada e elegante, conforme eles tinham planejado.

Quase no final da valsa Luana sentiu-se mal, caiu aos pés do seu marido. Morreu envenenada como a sogra que não conheceu. Foi algo terrível e até hoje George chora o luto inconsolável.

Tive a força de levar a vida adiante e enfrentado o pesadelo nunca revelado de ter descoberto em meus aposentos, após a tragédia, um bilhete: “Esta, pelo menos, não dará um herdeiro ao trono antes de morrer”.

 

 

 

Comentários:

Adorei, se fosse pra dar uma de detetive investigaria Luana...&128521;&128513;

Jara, Porto Alegre 04/01/2019 - 14:46

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