Contos

Eu vivo para comer

Rogério Anele
06/03/2019


Givanildo Alves voltou a pensar mais seriamente em escrever seu livro. Já vinha há algum tempo considerando isso. Até tinha comentado com seus colegas da escola onde trabalhava e, assim como ao mencionar à sua família, havia recebido incentivo de todos. Diversas dúvidas o atormentavam: teria conteúdo, seria atrativo, algum editor publicaria? Estas e muitas outras questões reverberavam em sua mente.

Desde a primeira vez que começou a arquitetar essa ideia, logo após seu primeiro retiro, passou a escrever sem compromisso. Em dado momento, depois da sua terceira experiência em programas de desintoxicação, releu seus escritos.

Logo chegou no texto que mais apreciava e vagarosamente curtiu o conteúdo, fazendo novos retoques:

“Gosto de comer e como demais. Sobre isto é desnecessário escrever, todo mundo sabe. Não é sobre gostar de comer ou comer muito que escrevo. De verdade, escrevo sobre o que me leva a comer, porque vivo para comer e não o contrário. Por que não como para viver?

Como porque é necessário para a sobrevivência, mas como mais do que o necessário. ‘‘Eu vivo para comer’’ vai muito além de um título, assemelha-se a um dogma. Como mais do que preciso e sempre falta comida para a minha sobrevivência. Odeio ser assim, mas sou assim e vivo assim desde que me conheço por gente. Por que preciso comer tanto?

Como porque gosto, talvez seja minha maior fonte de prazer, ou a única de verdade. A terapeuta e a nutricionista já me disseram várias vezes para buscar outras. Nunca entendi isto, ou sempre entendi e nunca aceitei.

Como para me proteger. A comida me traz segurança. Antes de uma reunião de trabalho difícil, complexa ou tensa, eu como. Também como por qualquer compromisso, e como antes para me preparar e depois para me recuperar. E também como durante e nos intervalos deles. A comida me traz conforto, proteção e força para o enfrentamento dos meus desafios. Existirá outra forma de ter segurança?

Como para controlar minhas emoções. Como quando estou triste para compensar a tristeza. Ao menos não sou depressivo, a comida me distancia disso. Assim me sinto.

Como quando estou feliz, talvez não mereça ser feliz ou a felicidade não me seja plena, então preciso de comida para compensar ou completar a felicidade. E se de emoção somos formados, então sou formado meramente pela comida. Não me amo desse jeito. Assim sou. Possivelmente não me amasse nem de outro jeito. Precisaria me amar para não comer tanto?

Como porque tenho fome e sempre estou com fome. Aliás, tenho pânico só em imaginar passar fome, passar fome é um medo que me persegue. Saciar a fome é uma das nossas necessidades básicas. Todavia, para mim, não basta saciá-la. Gostaria de assassinar a fome de uma forma brutal, tanto quanto ela reverbera na minha mente o tempo todo. Ela me mata a cada dia um pouco mais pelo exagero. Por que preciso sempre carregar comida comigo?

Como porque dar comida, para mim, é um ato de carinho, dar muita comida é uma paixão absurda e incontrolável. Tenho o hábito de reunir amigos e fazer uma comida especial. É a maneira como demonstro o quanto os amo. Comida e amor para mim são sinônimos. Não existe um sem o outro. Por que não encontro outras formas de amar?

Como porque a comida é uma forma de expressar a arte. Arte aprendida e desenvolvida ao longo da minha existência. Li que preparar e decorar pratos é uma forma de expressar arte. Maldito dia em que li isso. Nunca tirei da minha cabeça. Ao contrário, aperfeiçoo dia a dia. Modéstia à parte, sou bom nesta arte. Faço comida, ofereço comida, como a minha comida, adoro a minha comida e amo fazer comida. Assim pratico arte diariamente. Teria competência de expressar a arte de outras maneiras?

Como porque faço retiros de desintoxicação. Às vezes, fico em dúvida se comecei a fazer esses programas só para poder comer mais. São momentos de descanso, introspecção e reflexão sobre a minha existência e o meu propósito de vida. Preciso disto para que também possa refletir por que preciso comer tanto. Quando encontro respostas, me recompenso comendo, e assim vivo como se fosse uma espiral sem fim. Devo parar ou ir mais vezes?

Como porque é um ato social. Isto não é uma verdade minha. Está na história, está na cultura, está no comportamento humano. Qualquer comemoração que se preze tem comida. Eventos têm comida, aniversários têm comida, encontro de amigos têm comida, casamentos têm comida, batizados têm comida, visitas aos avós têm comida. Até velórios têm comida. Não no Brasil, mas aqui as pessoas dão um jeito de ir até o café do cemitério para ver se tem algo interessante para comer. Comer é um ato social consolidado e não posso ser antissocial.

Como porque sou de origem italiana. E os italianos gostam de comer. São conhecidos no mundo todo pela sua arte de fazer massas e nem sequer as inventaram, mas, com certeza, as aperfeiçoaram. Para não fugir à tradição, adoro-as de todos os tipos e com todos os molhos, à exceção dos brancos. Também adoro as pizzas, pão ciabatta nem se fala, risotos, carpaccio, gelattos de qualquer sabor e o tiramisù. Ah, o tiramisù, uma celebridade. E também adoro vinhos italianos, combinam com todos os pratos. Se não fosse de origem italiana, comeria menos?

Como porque tenho a outra metade da origem nos portugueses. E os portugueses não ficam atrás dos italianos. Falar em comida portuguesa é lembrar do bacalhau e toda as infinitas maneiras de prepará-lo. Dos mariscos, do leitão assado e de todas as comidas com azeitonas. Azeitonas, poderia comer uma tonelada delas, principalmente as pretas! Amo as sobremesas com ovos e os pastéis de nata, chamados de pastéis de Belém. Os portugueses também têm vinhos maravilhosos. Se não fosse de origem portuguesa, comeria menos?

Como porque sofro. E sofro porque como. Esta dialógica recursiva, como dizia minha orientadora do mestrado, sempre me perseguiu. Não sei o que começou primeiro. É como a dúvida do ovo e da galinha, só para ficar em um exemplo de comida. De fato, não importa quem veio primeiro, o fato é que são questões interligadas e acredito na interdependência delas. Se não sofresse, não comeria; se não comesse tanto, não sofreria.

Como porque a primeira refeição do dia abre o caminho para as demais. Ela é responsável por acordar meu organismo e prepará-lo para as diversas ingestões no restante do dia. Aprendi que a primeira refeição da manhã é a mais importante e saudável. Maldito instante em que aprendi isso. Nunca aceitei, pela simples razão de achar que todas têm a mesma importância. Por que não posso sobreviver só com a primeira refeição do dia?

Como porque durmo. É bom comer e entrar naquele processo de letargia, ficar amolecido, bocejar, ter preguiça. A nutricionista me disse: uma noite mal dormida aumenta a fome no dia seguinte. O sono nos alimenta. Engraçado, dormindo bem ou dormindo mal, o tamanho da fome para mim é o mesmo. Aliás, comigo também não tem a história de comer em demasia e não poder deitar. Quanto mais como, mais cedo preciso deitar. Tipo assim, um urso hibernando. Me sinto um urso, sou um urso. Por que não posso me alimentar só de sono?

Como porque convivo com as pessoas. É parecido com a questão do social, mas aqui sob um outro ponto de vista. Não consigo comer sozinho, à exceção do café da manhã, por acordar cedo. Entre comer sozinho e ficar com fome até o primeiro se levantar, prefiro a solidão. Nas outras refeições, necessito de companhias, de coniventes para os atos exagerados de comer. Preciso de cúmplices para não praticar o pecado da gula sozinho. Não que os demais também pequem. O simples fato de estarem comigo me alivia desta culpa. Preciso de competidores para ver quem come mais. A escolha do local do almoço e o cardápio do jantar vira, na maioria das vezes, uma tarefa árdua, porém prazerosa. Se comesse sozinho comeria menos?

Como porque sou ansioso e intenso. Todos somos ansiosos. O fato é que sou muito ansioso e também intenso. Assim pratico a intensidade na hora de comer, tanto na quantidade como na qualidade, buscando as duas coisas. Tudo para mim deve ser abundante, inclusive o tamanho dos pratos. Como porque bebo. E bebo porque como. Não se trata de beber demais. Aliás, alto teor alcoólico nunca me acompanhou. Se trata de apreciar a bebida, e só se houver comida junto. Abro e começo a sorver um vinho quando inicio o preparo da comida. É um ato sagrado. Os vinhos são maravilhosos e qualquer comida vai bem com um vinho. O néctar dos deuses, como escrevem. Uma única garrafa sendo tomada calmamente no preparo e durante o jantar. Ou após, ouvindo música house acompanhada de um chocolate belga.

Como porque odeio pessoas magras, não as magras em geral. Só das magras que comem muito. Engordo até em pensamento. Ver magros comendo mais do que eu me deixa transtornado. Fico irado vendo-os em camisetas modelo slim fit, aquelas de cinturas afinadas. Nunca vou poder vestir uma dessas. Compenso comendo mais ainda. Comer sem engordar, para alguns, é explicado por um tal de metabolismo. Isso me ajudou a não matar um magro comilão. Por que meu metabolismo não é igual ao deles?

Como porque existe jantar. E o jantar é o momento pleno da minha realização. É a ocasião pela qual me dedico o dia inteiro. Penso, arquiteto e me organizo para fazer algo bacana. No jantar relaxo, amo a quem amo de verdade. Curto minha casa, meus filhos e minha esposa. Não consigo me imaginar sem viver ao lado da Shirley, minha companheira nessa mesma jornada. O jantar é o combustível necessário para enfrentar os desafios do trabalho e a dificuldade do dia a dia. Viver é fácil, desde que existam jantares. Aliás, deveríamos ter duas noites a cada dia.

São tantas as razões e perguntas. Não quero cansá-los com esta conversa. Se já não os cansei. A ideia não é essa, tampouco pedir ajuda, desabafar ou até mesmo dividir meus conflitos. Nem mesmo sei de fato qual é a ideia. Quem sabe apenas um manifesto no sentido de sair em defesa de um obeso ou gordinho, para que ele não seja rotulado como alguém sem vontade, relaxado ou com falta de vergonha na cara, como escutei e ainda escuto no andar da vida.

Não acho também que isso seja uma doença grave. Doença sim, mas não grave. Tenho consciência da existência de outras enfermidades piores do que comer em excesso, como o alcoolismo, o vício em drogas ilícitas, a depressão.

Afirmo aos meus amigos ter as respostas de todas as questões apresentadas aqui e as também não comentadas, e só por isso consigo me manifestar sobre elas. Isso não me impede de até hoje ter dificuldades de enfrentá-las e momentos de revezes com retrocessos e retomadas. Em um outro ponto você vai me reencontrar com alguma abordagem sobre resiliência. É disso que precisamos, ter resiliência, não desistir nunca. Apanhar e se levantar. Perder e voltar a jogar. Se frustrar e ter força para superar. E acreditar sempre, todos temos os nossos conflitos. Para cada indivíduo eles são difíceis de enfrentar. Então, amigos, resiliência é a chave da porta de saída”.

Ficou longo tempo imerso nesse relato. Se via nele, se expunha com ele. Curtia demais o texto. Teria coragem de publicar isso? Achava que sim, embora ainda não tivesse a convicção de ter resolvido esses conflitos.

Não importava, queria mesmo é ser escritor e não necessariamente resolver seus problemas com a comida. E quem sabe começar seu livro com esse texto.

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